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Covid-19: pediatras da Fiocruz falam sobre vacinação de crianças e adolescentes

Alessandra Marins Pala e Marcio Nehab tiram dúvidas sobre o assunto.

Em janeiro, o Ministério da Saúde iniciou, oficialmente, a campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil. Embora a vacina não esteja disponível para toda a população, acende um fio de esperança em meio ao caos vivido pelo país, já que soma mais de 210 mil mortes pela doença. Nesse contexto, muitas dúvidas e questionamentos criam especulações, principalmente sobre o fato de não saber quando crianças e adolescentes receberão o tão esperado imunizante.

Covid-19: pediatras da Fiocruz falam sobre vacinação de crianças e adolescentes

Para responder algumas questões que tem criado incertezas, os pediatras e infectologistas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF), ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Alessandra Marins Pala e Marcio Nehab tiram dúvidas sobre o assunto.

Por que as crianças não serão vacinadas contra Covid-19 neste momento?

Alessandra Pala: Os testes das vacinas já liberadas no Brasil foram feitos apenas em indivíduos a partir de 18 anos e só podemos vacinar os grupos nos quais as vacinas foram testadas. Crianças, adolescentes e gestantes terão que esperar até que haja estudos específicos. Os testes nestes grupos são necessários para definir a dosagem correta, além da segurança e eficácia nesses diferentes grupos.

Em um cenário de escassez de vacinas, a prioridade é a vacinação dos mais vulneráveis. Como ficam as crianças com doenças crônicas nesse contexto? Em que momento elas poderão receber o imunizante?

Marcio Nehab: As crianças com doenças crônicas seguem os mesmos critérios. A vacina só poderá ser administrada após comprovação e eficácia dos estudos. Neste sentido, prevalecem as medidas de distanciamento social, higienização correta das mãos e uso de máscaras.

Assim como foram realizados os testes em adultos, também serão realizados em crianças antes de dar início a imunização infantil? Como se dá esse processo?

Alessandra Pala: São necessários estudos na faixa etária pediátrica para a liberação das vacinas nesta população.  O estudo da Pfizer-BioNTech, por exemplo, testou pessoas a partir de 16 anos e já iniciou os testes em adolescentes entre 12 e 15 anos e a Moderna está recrutando indivíduos entre 12 e 17 anos. Outros estudos, no entanto, ainda estão em fase de organização da metodologia. Após os resultados destas pesquisas, será necessário ainda que as agências reguladoras liberem o uso dos imunizantes nestas faixas etárias. Outro fator limitante será a disponibilidade das vacinas para estes grupos.

Quando atingirmos a chamada vacinação de rebanho no público adulto, as crianças estarão seguras, mesmo que ainda não estejam vacinadas?

Marcio Nehab: Sobre a vacinação de rebanho, não é possível fazer uma previsão do número de pessoas vacinadas para que a pandemia melhore, é claro que, quanto maior o número de pessoas imunizadas, espera que haja uma maior proteção, porém, até o momento, não temos nenhum estudo que comprove essa hipótese. Portanto, a diminuição da transmissão está associada ao distanciamento social, higienização das mãos e o uso correto das máscaras. As vacinas servem para, no momento, proteger contra as formas graves da doença, óbitos, internações hospitalares em Centros de Terapia Intensiva (CTI) e intubação traqueal.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em quase 30 anos, houve um declínio na taxa de vacinação de rotina em crianças em todo o mundo e isso se agravou devido à pandemia. Qual o perigo de não vacinar as crianças?

Alessandra Pala: A ampla cobertura vacinal de uma população é a única maneira de garantir que doenças erradicadas não voltem. O Brasil recebeu o certificado de erradicação da poliomielite em 1994, do sarampo em 2016. Não temos registros de casos de poliomielite no país até o momento, mas perdemos o certificado de erradicação do sarampo em 2018, devido a ocorrência de surtos recorrentes da doença. Corremos também o risco de ver aumentar a transmissão das doenças que estão sob controle, como o tétano, a difteria e a meningite, entre outras. O sarampo é a doença que causa mais mortes entre as doenças evitáveis com a vacinação e a maioria dos óbitos ocorre em menores de cinco anos. Segundo dados da OMS, o sarampo causou 2,6 milhões de óbitos no mundo em 1980; 545.000 em 1990 e 96.000 em 2013. Esta queda impressionante se deve à ampla vacinação das crianças e não podemos permitir que estes números voltem a subir simplesmente porque não estamos mais vacinando nossas crianças.  

Com a perspectiva da vacinação, como ficam os desafios da retomada escolar?

Alessandra Pala: Mesmo com a perspectiva da vacinação em massa, ainda restrita ao público prioritário, no Brasil, o número de casos de Covid-19 ainda é muito alto, sem contar com a falta de eficiência de um bom sistema de rastreamento de contágio. Isso representa uma ameaça acional de propagação do vírus da Covid-19 para os profissionais da educação, alunos e familiares. Para minimizar os riscos nessa retomada ao ambiente escolar, é essencial que sejam adotadas medidas gerais de cuidados, bem como, o distanciamento social de 1,5 e 2,0 metros; reorganização dos espaços das salas de aula, a fim de manter o distanciamento entre alunos e professores e também garantir ambientes com ventilação adequada. É importante que esteja disponível material para lavagem das mãos com água e sabão ou a utilização frequente do álcool em gel, é importante também desinfetar as superfícies e objetos utilizados durante as aulas e garantir a utilização de máscaras para todas as crianças a partir de dois anos de idade.  

Os pais precisam ter consciência que não bastam os cuidados adotados na escola. Se uma família se propõem a levar a criança para a escola, ela precisa fazer a sua parte e reduzir as suas próprias possibilidades de se infectar, não adianta as crianças tomarem todos os cuidados na escola, se no final de semana, os pais vão às festas, reuniões com amigos e se expõem, aumentando o risco de contaminação. Caso a criança apresente qualquer sintoma relacionado ao coronavírus, por exemplo, nariz escorrendo, tosse, espirros, mesmo que sejam sintomas leves, ela não deve, de forma alguma, frequentar o ambiente escolar.

Marcio Nehab: Vacinas são instrumentos de proteção individual e importantes também para a saúde pública por seu valor epidemiológico em reduzir ou mesmo erradicar doenças. Embora a vacina não impeça a transmissão, caso se tenha contato com o vírus, ela gera resistência e anticorpos aos organismos imunizados. Portanto, o uso de máscaras, higienização adequada das mãos e manutenção do distanciamento físico seguem altamente recomendados. Ainda que os profissionais, no ambiente escolar, estejam vacinados, as medidas preventivas precisam continuar. Todos os protocolos precisam ser seguidos rigorosamente, para que haja um ambiente seguro para todos.

Foto: Governo do Amapá, via Fotos Públicas (acervo)

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Sobre o autor: Jornalista profissional (DRT-MA nº 1.139), com ênfase em produção de conteúdo para Web, edição de fotos e vídeos e desenvolvimento de infográficos; com passagem pelas redações do Imirante.com e G1 no Maranhão; e vencedor, por dois anos (2014 e 2015), da etapa estadual do Prêmio Sebrae de Jornalismo, na categoria Webjornalismo. Saiba mais

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